Como Descobrir Sua Vocação? Uma Estratégia Simples e Outras Reflexões


Como Descobrir Sua Vocação? Uma Estratégia Simples e Outras Reflexões

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Sua escolha profissional é grande parte da sua vida. De acordo com a forma tradicional de pensar, se você trabalha 40h por semana, isso equivale a quase 25% de sua vida, sem considerar o translado e o estresse que migra para sua casa.

Com uma visão mais atual (à qual subscrevo), seu trabalho é sua vida. Ou melhor, sua vida é seu trabalho. Não que você seja um workaholic que só faça trabalhar, mas que seu trabalho é uma expressão de quem você é, sendo parte integral, portanto, de sua vida.

De um jeito ou de outro, estar no caminho profissional certo faz toda diferença. E é nisso que boa parte das pessoas erra, por motivos como:

  • Falta de experiência, já que cedo na vida somos obrigados a tomar decisões que vamos ter que levar por décadas.
  • Pressão externa, já que a família e a sociedade querem que a pessoa se encaixe em alguns caminhos pré-determinados buscando fantasmas (vide estabilidade, prestígio, etc.) como se fossem sinônimo de felicidade.

Muita gente até segue esse caminho, mas mesmo as pessoas que “sucederam” dessa forma vivem frustradas por não terem seguido um caminho mais próximo do que realmente queriam, ao contrário do que lhes foi imposto de uma maneira ou de outra.

A Realidade Sombria do Mercado de Trabalho

mar com neblina forte

Para quem quer entender um pouco mais a ciência da felicidade, eu recomendo buscar livros sérios com estudos bem embasados explicando, principalmente, a relação do dinheiro com a felicidade. Ler um pouco a respeito da esteira hedônica, que já mencionei por aqui, também vai ajudar a abrir sua mente.

Quero destacar que embora a conversa agora seja sobre vocação e caminhos profissionais, ela toca muitos assuntos que serão úteis para outros tipos de mudança de vida, caso sejam do seu interesse. Afinal de contas, escolher uma carreira profissional passa por um profundo conhecimento das próprias aspirações e desejos, o que ajuda com todo tipo de mudança.

Vamos, então, discutir sobre como encontrar aquilo que traz brilho nos olhos para você?

A sociedade está mudando em um ritmo frenético nas últimas décadas e poucas pessoas percebem o impacto nas relações sociais, focando apenas em avanços tecnológicos. A presença ubíqua da tecnologia da informação não só facilita a realização de trabalhos escolares, mas altera o próprio tecido da sociedade capitalista, já que as relações de emprego e carreiras profissionais estão sendo reescritas.

Por um lado, uma previsão atual aponta que até mesmo 47% dos empregos serão automatizados dentro dos próximos vinte anos, o que significa que metade das pessoas ativas hoje estarão desempregadas em médio prazo. E claro, nenhum país está preparado para lidar com isso, o que faz nossa confiança na previdência social – e na sua capacidade de pagar nossas aposentadorias – se esvair.

Por outro, o caminho tradicional para o “sucesso” está ficando inviável. Antes, o esforço era entrar numa boa faculdade. Passou a ser ter o domínio do inglês como diferencial. Depois, ter experiência no exterior. Ter o domínio da 3º língua. Ter especializações. E a lista de demandas para cada vez menos vagas não para de crescer.

A realidade é que não há mais estabilidade profissional nem espaço para todo mundo no mercado formal de trabalho. E, ao que tudo indica, parece ser um processo irreversível.

Um dos livros que recomendo mais fortemente, Escolha Você, do James Altucher, traz uma explicação interessante para a crise econômica de 2008. Ainda que talvez um pouco exagerado para o cenário brasileiro, a análise de James do cenário americano dá uma boa ideia de nosso futuro:

“A maioria dos empregos que existiam há 20 anos não são precisos agora. Talvez eles nunca tenham sido. A primeira década inteira desse século foi gasta pelos CEOs em clubes na Park Avenue se lamentando entre cigarros, ‘como nós vamos despedir todo esse peso morto?’. 2008 finalmente deu a eles a chance. ‘Foi a economia!’, eles disseram. O país está fora de recessão desde 2009. Quatro anos agora. Mas os empregos não voltaram. Eu perguntei a muitos desses CEOs: ‘você só usou aquilo como uma desculpa para despedir pessoas?’, e eles piscavam para mim e diziam ‘vamos deixar por isso mesmo’.”

 O Verdadeiro Desafio Profissional

Eu nunca cheguei a fazer uma estatística a respeito, mas posso dizer com confiança que pelo menos quatro em cada cinco emails que recebi de leitores desde o nascimento do Estrategistas trata de insatisfação com vida, gerada basicamente pela escolha de profissão. É muito comum ver pessoas que:

  • Começam uma faculdade com motivação financeira e não aturam o curso.
  • Encontram-se em um emprego que não gostam mas não sabem como progredir na vida.
  • Concluem a faculdade, mas estão desempregadas.
  • Estudam para concursos por falta de alternativa.

E, por mais incrível que possa parecer, mesmo pessoas com salários altos e carros do ano podem se sentir insatisfeitas em um nível pessoal com a carreira escolhida. Aparentar ter dinheiro, afinal, não significa necessariamente ter uma vida rica, já que o dinheiro vem com todo um conjunto de obrigações e dependências ocultas que quase ninguém considera ou fala a respeito. Além disso, bem estar financeiro é uma condição relativa e embora necessária, não  é suficiente para satisfação pessoal.

O resumo do quadro geral, então, não parece ser muito animador.

  1. A concorrência aumenta de modo vertiginoso, tanto porque mais pessoas possuem acesso ao “caminho tradicional” para o sucesso (faculdade -> bom emprego), quanto porque há menos vagas disponíveis, graças ao aumento da eficiência promovida pelos recursos tecnológicos.
  2. O entendimento comum sobre o caminho para o sucesso não funciona e está escalando de modo insano. Graduação, pós, inglês, espanhol, francês, experiência no exterior, habilidades comunicativas, tudo isso para um emprego regular
  3. O nível de frustração profissional só cresce, já que os caminhos profissionais promovidos como atraentes não se encaixam com as aspirações individuais das pessoas, resultando em uma vida frustrada e vazia (com ou sem dinheiro).

O que fazer, então? Será que é possível encontrar o que se ama, trabalhar e prosperar financeiramente na área?

 Vocação Como um Fenômeno Real

Skate e um homem que provou ser capaz

Robert Greene é uma das mentes estrategistas mais brilhantes da atualidade. Autor de 5 bestsellers internacionais, seu trabalho tem uma característica distinta: a busca por soluções para problemas atuais na História.

Seus livros (33 Estratégias de Guerra, As 48 Leis do Poder, Maestria, A Arte da Sedução e A 50º Lei) são recheados de lições retiradas da vida de grandes nomes, desde Sun Tzu, Maquiavel e Von Clausewitz, até Benjamin Franklin, Mozart e Don Juan.

No caso do livro Maestria, que recomendei há alguns meses, Robert objetiva descrever e trazer um entendimento melhor sobre o que fez os grandes ícones de todas as áreas serem quem eles são. O que faz um homem alcançar feitos magníficos, explorando seu potencial ao máximo e vivendo uma vida mais significativa?

Para ele, todos foram resultados da combinação especial entre engajamento em suas verdadeiras vocações com trabalho duro (executado de um modo especial, que podemos discutir em outra ocasião).

O livro defende o caso de modo bem persuasivo que a verdadeira felicidade vem do alinhamento de nossas inclinações únicas com o esforço consciente na direção do crescimento e da expansão de nossas habilidades. Dinheiro, fama e sucesso? Chegam, mas como consequência.

Uma ideia já clichê, mas verdadeira. Por isso, nossa discussão será em torno de uma ideia controversa: vocação.

“Se você se desvia de sua vocação interior, pode até ter algum sucesso na vida, mas acabará vítima de seu verdadeiro desejo. Seu trabalho se torna mecânico. Você passa a viver para o lazer e para prazeres imediatos. Assim, torna-se cada vez mais passivo e nunca avança além da primeira fase. Você pode ficar frustrado e deprimido, sem se dar conta de que a fonte de tudo isso é a não realização de seu potencial criativo.”

— Robert Greene

Eu nunca levei a sério esse conceito. A ideia de predestinação para determinada coisa pareceu boba: onde exatamente nas leis que regem o universo está escrito que devo ser um advogado?Ou piloto? Ou jogador de futebol? Eu chequei essas leis e não encontrei nada do gênero.

O princípio é simples: você é único no universo pois seu DNA é único. Nunca antes na história nasceu uma pessoa com a mesma informação genética que você, muito menos que tenha crescido no mesmo ambiente, sob as mesmas condições. Por isso, podemos supor que o conjunto de atividades que vai prender seu interesse são razoavelmente únicas (ou, pelo menos, não necessariamente igual ao “padrão”).

Para algumas pessoas, são trabalhos manuais, já que elas se sentem bem construindo coisas. Para outras, a música esconde um fascínio incrível que as faz se sentir conectadas com o ambiente. Para outras é a matemática, a química, o futebol, o arco-e-flecha… enfim, cada humano possui um conjunto de interesses únicos.

Essa ideia foi reforçada com os achados em pesquisas de que bebês bem jovens já mostram inclinações para gostos e preferências, o que suporta a hipótese de que mesmo para bebês, organismos diferentes reagem de modo diferente aos mesmos estímulos (favorecendo a ideia da preferência a estímulos baseada na unicidade do DNA).

Isso é o que chamamos de vocação. Se antes o conceito descrevia uma pré-destinação religiosa do universo para certa atividade, agora ele descreve sua inclinação natural e única para determinadas áreas baseadas na singularidade de seu DNA e de suas experiências de vida.

Você pode até ter algum sucesso em uma carreira que não seja sua inclinação natural, afirma Robert, mas em alguns anos, com ou sem dinheiro acumulado, você começa a se sentir inquieto e vazio. Seu potencial está dormente e a falta de ação começa a influenciar as outras áreas da vida.

 

Como, Então, Descobrir Sua Vocação?

find what you love

“Encontre o que você ama e deixe que aquilo mate você”

Entre os vários seres possíveis que nos habitam, cada um de nós sempre encontra aquele que é o mais genuíno e autêntico. A voz que o convoca para esse ser legítimo é o que denominamos “vocação”. Mas a maioria das pessoas se empenha em silenciar a voz da vocação e se recusa a ouvi-la. Consegue gerar ruído dentro de si mesmas (…) distrair a própria atenção a fim de não ouvi-la; e se iludem ao substituir o eu genuíno por uma vida falsa.

— José Ortega Y Gasset

Há muitas atividades nas quais você pode se engajar e leituras que você pode fazer para te ajudar a descobrir exatamente o que te faz funcionar bem.

É um conteúdo tão amplo, na realidade, que leciono um curso dedicado a ele, no qual abordoestratégias e táticas para quem quer descobrir a própria vocação.

O curso, Como encontrar sua vocaçãonão se encontra disponível agora, mas o escopo dele é o seguinte:

  • Uma discussão mais aprofundada sobre o mercado de trabalho x a importância/praticalidade do desenvolvimento da vocação de cada um.
  • Estratégias para a descoberta de sua vocação, as mesmas que beneficiaram grandes nomes na história (Einstein e madame Curie, por exemplo).
  • Apresentação de uma das ferramentas mais poderosas de autoconhecimento que conheço, a fim de que você possa se entender melhor e, por consequência, saber que direção tomar.
  • Táticas para serem aplicadas tanto na busca da vocação quanto na preparação da vida para ela.

Se está interessado, recomendo assinar aqui para receber novidades a respeito. Por ora, vou apresentar uma das estratégias mais poderosas que discuto por lá.

Afinal de contas, essa série de textos é sobre mudança de vida. Objetivo que quem leia possasair daqui com uma ideia bem sólida dos próximos passos a serem colocados em prática, o que, por sua vez, requer teoria de alta qualidade aliada a conhecimento prático.

A Estratégia da Inclinação Primordial

Monge em jornada espiritual

Um dos grandes problemas em crescer numa sociedade complexa é que nossa essência é moldada para que funcionemos dentro do sistema. Não é algo maléfico nem muitas vezes intencional, mas seus pais, familiares e professores moldam-no para que você caiba nos espaços disponíveis.

O que antes era uma paixão por desenho é deixada de lado por não ser uma atividade que vá levar à obtenção de um bom emprego. A vontade de cantar? A paixão por plantas? A energia indescritível que subir em um tatame despertava? Tudo isso deixado de lado em busca de caminhos tradicionais.

A estratégia da inclinação primordial se baseia em buscar na sua infância por desejos puros, não contaminados pelas crenças que você absorveu enquanto amadurecia. A chave é buscar dentro de si mesmo, em sua memória por situações em que você se sentiu diferente, excitado, com brilho nos olhos diante de algo ou alguma coisa.

É algo que pode levar um tempo, enquanto você visita as memórias mais importantes e re-experimenta as atividades, mas tem boas chances de render frutos. Pode ter sido:

  • um objeto, como no caso de Einstein, que aos 5 anos ganhou uma bússola do pai, despertando uma fagulha que expandiu em seu interesse pela física. No caso de Marie Curie, foram os equipamentos do laboratório do pai, quando os viu pela primeira vez aos quatro anos, que imprimiram um fascínio em sua imaginação que veio a crescer até uma paixão pela ciência experimental.
  • uma atividade que despertou a sensação de poder, como no caso de Martha Graham. Ainda jovem, sentia-se muito frustrada pela incapacidade de se comunicar plenamente com as pessoas a sua volta. Até assistir a um espetáculo de dança e se conectar profundamente com aquele modo de expressão.
  • algo na cultura, como no caso de Daniel Everett, antropólogo e linguista contemporâneo. Ao crescer em uma região rural do EUA que fazia fronteira com o México, ficou fascinado com o contato com a cultura mexicana: a linguagem, o modo de relacionamento entre os trabalhadores que encontrava, a cultura, todo aquele universo.
  • o encontro com um Mestre, como foi com John Coltrane. Em sua juventude, sentia-se estranho e deslocado, com anseios que não conseguia suprir. Investia sua energia no aprendizado de saxofone como atividade paralela, até ir a um concerto de Charlie Parker, cujo som do saxofone lhe causou uma impressão muito forte. Dali em diante, cresceu com Charlie em vistas e passou a expressar sua singularidades pela música.

 

“Essas atrações da infância são difíceis de expressar em palavras e são mais como sensações — o deslumbramento, o prazer dos sentidos, o sentimento de poder, a exacerbação da consciência. É importante reconhecer essas inclinações pré-verbais porque são indícios claros de uma atração não contaminada pelos desejos de outras pessoas”

— Robert Greene

Colocando Tudo Junto

Se a mudança que você busca em sua vida não tem um cunho profissional, você receberá todo o benefício desse processo de autoconhecimento de modo indireto.

Caso seja uma mudança profissional que você deseje, será preciso algum tempo de pesquisa e experimentação até chegar à “Atividade” que se conecta com suas inclinações mais internas. E é por isso que falei a respeito de “segurar a linha” e entrar no modo de manutenção no texto passado.

Há quem diga “mas isso vai levar muito tempo, Paulo!”.

A maioria das pessoas fica ansiosa para estar fazendo algo, alguma coisa, mesmo que não seja o que elas querem, porque não ter a resposta pronta é assustador. Elas ficam saltitando de faculdade em faculdade, para cursos técnicos, para preparatórios de concursos, sem nunca tirar um tempo para simplesmente viver a vida e pensar a respeito do que realmente querem.

A essas pessoas, costumo responder que lhes faltam um senso histórico apurado.

Imagine que daqui a 200 anos alguém está lendo sua biografia. Essa pessoa descobre que você passou (vamos exagerar aqui), de 2015 a 2018 experimentando vários caminhos de vida diferente, mas aí chegou em algo que realmente conectava com suas aspirações e dali você seguiu para progredir e fazer grandes coisas para a humanidade.

Bem, não parecer algo ruim ou perda de tempo, certo? Viveu de 1980 a 2014, passou um tempo de descoberta de 2015 a 2018 e seguiu crescendo até alcançar grandes coisas de 2018 a até 2060 (ou o quanto você viva, espero que pra sempre). Especialmente considerando quevocê estará se divertindo e explorando várias atividades novas, com diversas experiências de vida, saindo do caminho batido da sociedade.

Não sou alienado: eu sei que você precisa pagar as contas do mês, todos nós precisamos. Mas nada impede que você arranje um emprego que lhe ajude a viver com o mínimo e libere o resto do tempo para que busque o que realmente quer.

Já contabilizou quanto tempo é desperdiçado ao fazer um curso superior que não lhe interessa, por exemplo? Tirar seis meses sabáticos para trabalhar em um emprego mais simples parece até uma boa ideia em comparação a 5 anos de gastos, frustração e consequente desemprego (faculdade não garante nada a ninguém).

E é algo mais comum do que você imagina. Por exemplo, um de meus mentores, Dan Andrews, falou do exemplo de vários empreendedores que pegaram um emprego noturno, como atendente de bar, para pagar as contas básicas enquanto passavam o dia ralando em busca do que acreditam. Ele disse que faria o mesmo, se estivesse naquela posição (hoje é muito bem sucedido e financeiramente independente).

Gary Vaynerchuk, de quem já falamos por aqui, falou algo que se tornou uma das imagens mais compartilhadas da história do Estrategistas a respeito disso:


 

FONTE:estrategistas.com
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